Um toque de pessoalidade

Bom,

os trabalhos seguem, amigos e amigas. Parte do grupo está se dedicando mais a pensar em propostas e realizar desenhos de alternativas bacanas para o projeto de reabilitação do prédio; outra parte está pensando em como efetuar as intervenções pontuais no prédio, melhorando as condições de vida de quem está lá hoje. Logicamente, os trabalhos se confundem, porque mexem com as demandas das pessoas e os problemas atuais do prédio.

Enfim, escrevo aqui agora porque me pareceu que de tudo o que publicamos aqui faltou um pouco de pessoalidade. Sempre descrevemos nosso trabalho e a situação política do prédio etc., mas pouco falamos de como nós, como agentes ativos também, nos sentimos.

A Mauá é um mundo bem diferente do meu.

Não sei o que é viver em família num apartamento de 10 m²; não sei o que é viver com o fantasma de um despejo e com a possibilidade de não ter um teto para morar; não sei o que é viver num organismo tão grande e agitado quanto um prédio de 6 andares com 1000 moradores.

Aprendo muito lá dentro. Tanto sobre construção civil como sobre solidariedade e coragem.

Outro dia fui tomar uma cerveja com Anísio, responsável pela manutenção dos sistemas elétrico e hidráulico do prédio. Profissional na construção civil, ele é um dos mais capacitados para manter o prédio funcionando. O empenho dele em manter o prédio funcional, apesar da dura jornada de trabalho durante o dia, é impressionante. Sempre disposto a auxiliar os moradores e a se reunir conosco para pensar nas alternativas, o Anísio pra mim é um exemplo de solidariedade e luta. Admiro de fato esse senhor, e fico grato por tê-lo conhecido e poder trabalhar junto dele.

Nesse bate papo, depois de ele e Robson (outro morador, marido da Neti) me contarem várias histórias de ocupações, confrontos com a PM, colegas que já se foram por causa de drogas, tráfico, crime, ele me disse algo marcante: “poxa, mas vocês são guerreiros, hein?“. Internamente discordei. Ora, os guerreiros são eles! Mas pensei melhor e conclui em voz alta: “somos todos guerreiros, Anísio, mas de formas diferentes“. De fato, o nosso trabalho é feito com ferramentas outras, com impactos e desdobramentos diferentes, mas também é uma forma de luta.

O Felps um dia me perguntou se eu passaria a noite lá caso fosse marcada a reintegração de posse. No momento, fiquei com dúvida, porque tenho meus receios quanto à legitimidade de ações como essas. Sei que tem muita gente que gosta de aparecer na televisão e no jornal alternativo entrando em confronto com a PM só pra falar que é revolucionário e que defende a igualdade de direitos. Mas ele falou em seguida: “não pense nisso… pense nas pessoas que conhecemos lá. Cê não passaria a noite lá, na casa do Anísio, por causa do Anísio, por exemplo?

Hoje eu tenho certeza de que passaria a noite lá e que levaria borrachada da PM sem me preocupar em me sentir pseudorrevolucionário. Não só pelo Anísio, mas pelas outras pessoas que a gente conhece e pelas crianças que sempre estão conosco lá dentro.

Enfim, um post que expressa um pouco do que sinto lá. Faço questão de assinar, pela pessoalidade das palavras.

Até mais! e forte abraço!

Bruno

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